Enquanto você grita para a tela, eles tomam decisões. O circo da Copa do Mundo e o que acontece nos bastidores


Costa do Marfim está vencendo a Alemanha. 1 a 0. Franck Kessié balançou a rede aos 30 minutos e metade do Brasil parou o que estava fazendo para olhar para uma tela.

E tudo bem. O futebol é bonito. A Copa do Mundo é emocionante. Mas enquanto você grita, discute escalação e manda mensagem no grupo da família — alguém está trabalhando.

Não no campo. Nas decisões que vão afetar sua vida.

Pão e Circo: uma ideia com 2 mil anos

O poeta romano Juvenal cunhou a expressão no século I d.C. A lógica era simples: dê comida e entretenimento ao povo, e ele não vai questionar nada. Não vai perguntar para onde vai o dinheiro público. Não vai exigir saúde, educação ou transporte de qualidade.

Dois mil anos se passaram. A fórmula continua funcionando.

Só que hoje o circo é transmitido em 4K, com narrador emocionado e patrocinador bancário.

Quanto custa esse circo?

A Copa do Mundo de 2026 está sendo realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. O custo estimado de organização ultrapassa 40 bilhões de dólares. Para comparação, esse valor seria suficiente para construir mais de 400 hospitais completos.

Não estou dizendo que Copa do Mundo é errada. Estou dizendo que é uma escolha. E que enquanto todo mundo debate se a escalação estava certa, ninguém debate essa escolha.

O que acontece quando o apito final soar?

O jogo acaba. A festa passa. A ressaca chega — não só para quem bebeu comemorando, mas para as cidades que sediaram jogos e agora precisam manter estádios que custam fortunas por mês para existir.

Isso tem nome: elefante branco. Estruturas gigantescas construídas para um evento de um mês que depois ficam paradas, consumindo dinheiro público por décadas.

Aconteceu no Brasil em 2014. Vai acontecer de novo.

Então não posso torcer?

Pode. Eu torço. Todo mundo torce.

Mas torcer com consciência é diferente de torcer no modo automático. É entender que o espetáculo tem um preço, que esse preço raramente aparece na transmissão, e que as perguntas mais importantes não são feitas durante os 90 minutos de jogo.

Elas são feitas depois. Quando a câmera desliga.

A questão não é parar de assistir futebol. A questão é não deixar o futebol — ou qualquer outro espetáculo — te impedir de prestar atenção no que realmente importa.

O apito vai soar. O circo vai continuar.

A pergunta é: o que você vai fazer quando ele acabar?

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